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| Ponte Simplício Dias sobre o Rio Igaraçu (Parnaíba-PI) |
Certa vez falaram que existia um lugar esplendorosamente bonito que você
iria depois que morresse, contudo existia outro lugar horripilante que você
iria depois que morresse também. Não se sabe muito, se sabe que você vai para
um ou para outro assim que morre. Assim pensava a Garota do Igaraçu, mergulhada
em dúvidas sobre o que viria depois. Ela andava sempre preocupada, sempre
amedrontada. Parecia que ela já vivia o lugar horripilante aqui na terra, era
como se ela usasse óculos cinza, a ótica era sempre a mesma. O amanhã sempre a
trazia medo e o ontem remorso, e o que falar do hoje? Um trágico e mero
excremento de vida. Sentada à beira do rio Igaraçu (por isso era chamada de Garota
do Igaraçu), ela refletia sobre a vida, refletia o quão certa ou errada ela
poderia está, afinal quem nunca parou para pensar isso? Assim, ela respirava
fundo e viajava em pensamentos, pensava no futuro, pensava na morte, pensava no
lugar esplendorosamente bonito, pensava no lugar horripilante, pensava em sobre
a existência de um Deus, sobre a existência do bem e do mal. Assim ela
procurava saber se era realmente feliz, procurava entender sua existência. Bem,
sua mente era uma caixa de surpresas, sua visão de mundo era cinza.
“Por que é tão vazio?” resmungou ela em um som inaudível, “por que
precisa ser tão indecifrável o além?”. Confesso que eu senti dó dessa Garota,
tão bela, no entanto tão triste. A água barrenta do Igaraçu continuava a correr
de forma incansável, o trânsito de automóveis, pessoas e animais estava intenso
sobre a velha ponte Simplício Dias, era um comum fim de tarde. Ela se levanta,
se estica, respira fundo novamente, fecha os olhos e fala “Deus, o que vem
agora?”. É incrível como todo mundo é avesso a Deus – sim, bem lá no fundo você
é – entretanto é ele que sempre culpamos por tudo o que dá errado, no final é
tudo culpa dele. Quando pensamos assim podemos entender porque a Garota do
Igaraçu vivia com medo do que vinha depois, um medo que parecia não ter razão,
ela simplesmente gastava sua vida pensando nisso, incomodava, o medo a
consumia, com isso ela não vivia, ela apenas sobrevivia. Mas será culpa de Deus
os nossos fracassos? A Garota do Igaraçu nunca soube o que era fracasso e nem o
que era sucesso, ela nunca tentou fazer algo porque seu medo a inibia. O
transcendental a apavorava, a fazia roer as unhas e entrar em depressão
profunda.
Já estava meio escuro quando ela voltou rumo ao centro da cidade,
passando pelos velhos prédios com características lusitanas, aquele ar fresco e
um clima pesado, o cheiro dos maus-tratos ao os escravos dos séculos passados
exalava naquele lugar, uma penumbra sem fim. Próximo a ao velho prédio da
Caixeral, ela olha para o chão vê um papel com algo escrito a mão “Se vida não
tivesse sentido, ela não teria sido criada, o final é certo, o ontem é passado
e o amanhã é você quem faz”. Nesse exato momento parece que Deus perde toda sua
culpa, a culpa recaia sobre ela, não seria ela e o seu medo que a fazia viver
tão infeliz? A Garota do Igaraçu abriu um sorriso, parecia ter tido um insight, parecia que a vida havia
desabrochado “O amanhã sou eu quem faz” dizia ela, e o sorriso crescia,
irradiava, os prédios velhos, alguns de arquitetura gótica pareciam tão
bonitos, tão intensos, tão vivos, mesmo sendo velhos, aquele nome “bistrot” na parede do prédio da Caixeral
parecia ter outro significado, algo como “Isso, é isso, a vida é para viver”,
ela começou a correr e corria com força, logo avistou o velho vagão 29 da Maria
Fumaça, lágrimas de alegria escorria por seus olhos, ela gritou “Estou viva” e
de repente naquele estado de êxtase um
carro em alta velocidade, sem chances de reação atinge-a, ocorre aquela trágica
abalroada e no mesmo momento morre a Garota do Igaraçu. Não se sabe para que lugar
ela foi, mas se sabe que o culpado dos nossos problemas não é ninguém além de
nós mesmo.

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